Cliente de bom poder aquisitivo compra mais pela internet

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Segmentos de alimentos e bebidas são os mais vendidos durante quase dois anos de pandemia

 

As famílias brasileiras compraram mais pela internet na pandemia e grande parte pretende manter esse tipo de compra mesmo que o avanço da vacinação no país permita o retorno das pessoas às lojas físicas. É o que mostra estudo exclusivo da Fundação Getulio Vargas (FGV), ao qual o Valor teve acesso, com base nos dados da Sondagem do Consumidor, divulgada todo mês pela instituição.

 

A pesquisa, que considera até vendas feitas pelo WhatsApp, comprova que a pandemia acelerou mudanças no hábito de consumo dos brasileiros, e constata que as compras on-line cresceram mais entre os consumidores de maior renda, algo que deve se manter e ampliar a distância entre ricos e pobres nas compras pela internet, diz Claudia Perdigão, economista da FGV e uma das autoras do estudo.

 

O interesse crescente por compras virtuais e o perfil desse público já impactam a estratégia de grandes varejistas como Magazine Luiza (Magalu), Grupo Pão Açúcar (GPA), Via, Grupo Soma, Renner, Mercado Livre e Lojas Americanas. As empresas apostam no efeito combinado dos dois tipos de venda – nas lojas físicas e pela internet. Frederico Trajano, presidente da Magalu, observou na semana passada que, a curto prazo, a busca é pelo consumidor mais capitalizado: “Nos preparamos para fazer uma Black Friday mais premium no on-line e no off-line, mas, nesse segundo caso, com mais oferta de crédito e condições de pagamento” disse Trajano, ao comentar os resultados da empresa no terceiro trimestre.

 

A pesquisa sobre compras na internet da FGV é um quesito da Sondagem do Consumidor. O trabalho traça o perfil do consumidor na crise da covid-19, e leva em conta entrevistas feitas em agosto em 1.946 domicílios, em sete capitais. Nesse total, 59,4% informaram que compraram mais por meios eletrônicos – internet, aplicativos e outros -, desde o avanço da pandemia no país, em março de 2020. Dessa fatia dos que compraram mais, 44,4% informaram que vão permanecer com a mesma cadência de compras atual nos próximos 12 meses; e 19,4% declararam que vão diminuir compras eletrônicas, ou aumentar compras presenciais.

 

O perfil do consumidor apurado pela FGV também revelou drástica diferença no consumo pela internet entre ricos e pobres. Entre consumidores com ganhos acima de R$ 9,6 mil mensais, 71,8% informaram consumo maior, em compras pela internet, na pandemia. E para os ganhos mensais inferiores a R$ 2,1 mil, esse porcentual ficou em 41,1% para a mesma resposta.

 

Esse distanciamento entre ricos e pobres nas compras pela internet pode continuar, segundo Perdigão, coautora do estudo. Isso porque os mais pobres têm menor acesso a crédito, bem como costumam dispor de conexão de internet de pior qualidade. A inflação elevada, que corrói a renda, também não ajuda. Esse é um cenário que não estimula mais compras.

 

Ao detalhar os dados da pesquisa, a especialista da fundação, que fez o estudo em parceria com outro economista da FGV, Rodolpho Tobler, comentou que, de maneira geral, os resultados evidenciam a mudança na maneira de comprar do brasileiro. Essa mudança, diz a economista, estava em curso gradativamente, com acesso paulatino maior dos consumidores à internet, mas foi impulsionada de forma expressiva pela pandemia.

 

“Antes da pandemia o brasileiro realizava compras on-line, mas era mais restrito do que hoje”, afirmou a economista. “O que tivemos, durante a pandemia no Brasil, foi processo de aceleração de compras virtuais. Um processo que se daria de qualquer maneira, mas que foi agilizado pela covid-19”, constatou. O rápido espraiamento da covid-19 no país levou a restrições sociais e de mobilidade, o que gerou menor presença em lojas físicas.

 

Outro levantamento exclusivo a qual o Valor teve acesso, a 7ª edição da pesquisa Consumer Pulse, da Dunnhumby (empresa que analisa dados de consumidor com sede na Inglaterra), também mostra interesse em alta do brasileiro por compras pela internet. Nessa pesquisa, a consultoria apurou que, com melhora gradual do quadro da pandemia no país, as visitas às lojas físicas devem voltar a crescer, e representar 60% do total de vendas contra 40% do on-line. Dois terços dos brasileiros, projetou a consultoria, realizam tanto compras on-line quanto offf-line. Isso indica aceleração do e-commerce ao longo do ano passado e deste ano, que entrou na rotina da população do país, informou a consultoria, em sua análise.

 

Perdigão, da FGV, é cautelosa ao analisar uma eventual redução nas vendas on-line como resultado da redução nos casos de contágio e de mortes pela covid-19, o que tende a estimular a maior presença dos consumidores nas lojas físicas. Na visão dela deve ser esperado um “ajuste”, por parte das lojas, que combine estímulos, aos consumidores, para efetuar vendas virtuais e físicas: “A compra on-line permite que o consumidor pesquise preços de forma mais ágil”, observou. “Mas na loja física se pode tocar, experimentar o produto”, ponderou. Para ela, os dois canais têm vantagens. “O que as empresas precisam é estabelecer melhor estratégia para combinar [as vantagens]” de cada canal.

 

Um outro aspecto revelado pela pesquisa é o fato de que, entre mais ricos e mais pobres, independentemente da renda, os setores de alimentação e de bebidas foram os favoritos nas compras on-line. Claudia informou que, do total de entrevistados que informaram comprar mais por meios eletrônicos, na pandemia, o produto e/ou serviço mais citado foi comércio de alimentos e bebidas (52,6%). Esse segmento também foi o mais lembrado, entre os que compraram mais on-line na pandemia, nas famílias com ganhos até R$ 2,1 mil mensais (47,5%) e nos domicílios com renda superior à R$ 9,6 mil (64,1%).

 

Por outro lado, chama atenção na pesquisa a discrepância de preferência, entre ricos e pobres, em compras virtuais de alguns tipos de produtos e/ou serviços. É o caso de telemedicina. Esse tipo de serviço, citado por 19% de entrevistados que informaram comprar mais pela internet, foi lembrado por apenas 7,3% das famílias com renda inferior a R$ 2,1 mil, e que informaram compras on-line em maior ritmo. Em contrapartida, nas famílias com renda acima de R$ 9,6 mil, a fatia para esse serviço foi de 29,5%.

 

O mesmo ocorreu com serviços de alimentação como restaurantes e lanchonetes, lembrados por 43,1% dos pesquisados que informaram comprar mais virtualmente na crise sanitária. Esse tipo de serviço foi citado por 18,6% das famílias com renda mensal até R$ 2,1 mil que tiveram maior candência de compras pela internet; e por 66,1% das com renda por mês acima de R$ 9,6 mil.

 

De maneira geral, disse a pesquisadora, é possível perceber que o interesse por elevar ritmo de compras virtuais na pandemia aumentou, entre ricos e pobres. Mas os ricos têm mais condições, financeiras e tecnológicas, de efetuar transações: “Percebemos inserção maior das compras virtuais. Mas é claro que para isso [para compras on-line] é preciso ter acesso à internet, à tecnologia”.

 

Fonte: Valor


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