Governo ignora sugestões de área técnica e mantém meta de inflação de 2011 em 4,5%

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O governo estabeleceu ontem em 4,5% a meta de inflação a ser perseguida em 2011 pelo Banco Central. A decisão mantém o mesmo alvo para a política monetária pelo sétimo ano e contraria as sugestões dadas pela área técnica da equipe econômica, que pregava uma redução da meta para pelo menos 4,25%. A decisão foi tomada em reunião ontem do Conselho Monetário Nacional (CMN), composto por três membros: o ministro da Fazenda, Guido Mantega; o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo; e o presidente do BC, Henrique Meirelles.

 

Nenhuma autoridade do alto escalão do governo compareceu à sala de entrevistas do Ministério da Fazenda para explicar as razões. Na porta da sede do Ministério da Fazenda, Bernardo apenas comunicou rapidamente que a meta havia sido definida em 4,5%. Mais tarde, na sala de entrevistas, o secretário-adjunto do Tesouro Nacional, Cleber Oliveira, fez um breve comunicado: "O CMN fixou a meta de inflação de 2011 em 4,5%, com um intervalo de tolerância de menos dois pontos percentuais e de mais dois pontos percentuais." Ou seja, a meta será considerada cumprida se a inflação ficar entre 4,5% e 6,5%.

 

De noite, a Fazenda resolveu oferecer as primeiras explicações para a meta, com a divulgação de uma nota. "A experiência brasileira nos últimos dez anos recomenda a manutenção de uma postura pragmática na determinação da meta de inflação para 2011", afirma texto divulgado. "No momento atual, a crise econômica implica forte retração da atividade econômica global em 2009, e as expectativas para a inflação mundial são de acomodação, sem a evidência de pressões altistas no futuro próximo. Ainda assim, a boa prática da administração monetária recomenda prudência em relação à possibilidade de ocorrência de novos choques internacionais. "

 

Há dois anos, quando foi definida a meta de 2007, Mantega e Meirelles compareceram pessoalmente ao auditório da Fazenda para anunciar e explicar a decisão. Naquela oportunidade, o BC, que defendia uma redução da meta para 4%, foi voto vencido. Em 2008, quando foi definida a meta de 2010, o diretor de Normas do BC, Alexandre Tombini, anunciou a decisão e explicou porque a meta foi mantida.

 

A meta de inflação, até a véspera da reunião do CMN, não havia sido discutida pelos três membros do colegiado. Na semana passada, Mantega disse que a intenção era evitar o clima de enfrentamento que, em 2007, marcou a definição da meta de inflação de 2009. Segundo a assessoria de imprensa do BC, Meirelles não compareceu ao anúncio porque ficou definido que a Fazenda, responsável por apresentar o voto ao CMN sobre a meta, iria apontar um representante para fazê-lo.

 

A definição da meta de inflação foi, dentro do governo, mais uma questão das áreas técnicas do que dos membros do CMN. Auxiliares próximos de Mantega, que em 2007 foram contra reduzir a meta, desta vez aconselharam o ministro a defender um percentual menor. Meirelles, pessoalmente, também era favorável a uma meta menor, mas, desta vez não quis passar pelo desgaste político de defendê-la. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva era contra baixar a meta em meio a uma crise financeira mundial.

 

Uma meta mais folgada facilita os planos eleitorais do atual governo, mesmo que essa não seja a razão central da decisão. Como a defasagem das decisões de política monetária sobre a inflação é hoje entre nove e 12 meses, a meta de 2011 terá de ser perseguida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC ao longo de 2010, ano de eleições. O próprio presidente do BC é apontado como provável candidato ao governo de Goiás.

 

Os argumentos técnicos em favor de baixar a meta eram que um percentual menor não iria, necessariamente, requerer um esforço maior da política monetária. Em virtude da crise financeira, que jogou a atividade econômica bem abaixo de seu potencial, o BC projeta em seus modelos econométricos uma inflação de 4,1% em 2009 e de 3,9% em 2010.

 

Veículo: Valor Econômico


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