Brasil pode crescer mais de 5% ao ano, diz "pai" do Bric

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Conjuntura: Jim O'Neill diz que manter inflação sob controle é a principal garantia de crescimento do país

 

O Brasil poderá crescer a um ritmo anual superior a 5% "por muitos anos", desde que mantenha a inflação baixa e estável e o investimento avance com força, avalia Jim O'Neill, chefe de pesquisa econômica global do Goldman Sachs. Criador do conceito do Bric (grupo que reúne também Rússia, China e Índia), O'Neill fez fartos elogios ao Brasil e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para ele o mais bem sucedido gestor político da década de um grande país. "O Brasil está numa posição muito privilegiada", afirmou ele, observando que o modo como o país enfrentou a crise é um "grande testemunho" da melhora dos últimos anos.

 

O'Neill conversou ontem com um grupo de jornalistas, no segundo dia de sua visita ao Brasil, na qual falou para cerca de 600 clientes. Lembrou que na passagem anterior pelo país, há dois anos, fez um discurso para justificar a presença do "B" no Bric. "É muito interessante que desta vez ninguém tem me perguntado sobre isso. Eu tenho agora é que justificar o 'R' [a Rússia] no Bric", disse ele, que relatou ter notado uma melhora significativa na confiança dos empresários em relação às perspectivas para a economia do país.

 

Para O'Neill, o grande trunfo do Brasil nos últimos anos foi ter conseguido derrubar a inflação e mantê-la num nível baixo e estável, o que é fundamental para as decisões de consumo e investimento. "O ponto mais importante da próxima eleição é que quem ganhar não mude isso." Segundo O'Neill, a manutenção dos índices de preços em patamares civilizados é o principal fator que pode levar o país a elevar o ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos anos.

 

Para ele, a despeito da crise, há sinais de que está em alta a perspectiva de avanço sustentado da economia do Brasil e de outros emergentes, como China, Índia, Indonésia e Turquia. "É muito possível que o crescimento potencial [aquele que não acelera a inflação] do Brasil esteja aumentando", disse O'Neill. "Nossa premissa era que o Brasil cresceria na próxima década entre 4% e 4,5%. Dependendo do que ocorrer na próxima eleição, é possível que o país esteja entrando num período em que pode crescer mais de 5% por muitos anos." Ele destacou a gestão do Banco Central, dizendo esperar que tenham diminuído as críticas à instituição, muitas vezes tida como excessivamente conservadora. "Se você olhar os indicadores econômicos, não parece que o BC esteja detendo o crescimento."

 

O economista não poupou elogios a Lula. Lembrou que, em 2002, era "extremamente popular" no mundo a crença de que o petista seria "ruim para o Brasil". Na verdade, ocorreu o contrário, disse O'Neill. "Lula pode ser considerado o melhor, o mais bem sucedido, gestor político de um grande país nesta década." Segundo ele, a solidez do país no enfrentamento da crise é uma recompensa a "uma política macroeconômica muito bem feita", devido à atuação do BC e ao governo Lula, e "possivelmente também por coisas feitas na administração anterior".

 

Ao comentar os desafios do Brasil para os próximos anos, O'Neill destacou a importância de o país aumentar o volume de investimentos em relação ao PIB. Esse é um dos pontos fracos em relação a outros emergentes, ao lado da pequena abertura comercial e da fatia excessiva do governo em relação ao PIB. Ele disse que há muitas empresas de outros países, dos mais diversos setores da economia, planejando investir no país "pela primeira vez", o que é algo importante para elevar o nível geral de inversões na economia. Para O'Neill, o governo deve encorajar esse processo, como faz a China. Com mais investimento, o Brasil poderá chegar aos 5% ou mais de crescimento sustentável, disse ele, considerando um avanço na casa de 7% ainda é uma tarefa complicada. "Vocês deveriam ficar contentes com 5%, dado a história dos últimos 20 a 30 anos."

 

O'Neill afirmou ainda ser desejável que a fatia do governo no PIB não aumente no próximo governo, a não ser que as despesas sejam relacionadas à infraestrutura e educação. "São gastos que podem ajudar a contribuir para melhorar o crescimento potencial do país."

 

O "pai" do Bric também apontou pontos positivos no modelo de exploração do petróleo na camada pré-sal. Segundo ele, o governo está sendo ponderado em relação ao assunto. Trata-se de um setor em que o Estado muitas vezes tem de assumir riscos que empresas privadas não estão dispostas a correr, segundo ele. O'Neill afirmou que o volume de investimento da Petrobras é "enorme" e está de acordo com o que é necessário. Sem o apoio do governo, eles tenderiam a não ocorrer, afirmou O'Neill.

 

O economista falou ainda sobre o nível do câmbio no Brasil. Disse que o real parece de fato valorizado e apontou os riscos de "doença holandesa", o fenômeno pelo qual o fluxo elevado de exportações de commodities aprecia excessivamente o câmbio, prejudicando setores manufatureiros. "Alguns setores não ligados a commodities deverão perder competitividade", afirmou ele, observando, porém, que alguns países, como a Alemanha, conseguem ser grandes exportadores mesmo obrigados a conviver com uma moeda forte.

 

Por fim, O'Neill mostrou otimismo em relação à economia global, acreditando numa trajetória de recuperação rápida pelos próximos seis meses. Indicadores antecedentes como a confiança dos empresários nos EUA e na Europa e números de comércio exterior na Coreia do Sul apontam para um avanço significativo nos próximos dois trimestres. O bom desempenho de economias emergentes, como Brasil, China e Índia, também é um fator importante. "Quando dizem que não há descolamento [entre países desenvolvidos e emergentes], eu me pergunto em que planeta essas pessoas vivem."
 


Veículo: Valor Econômico


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