Crise é crescimento

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O ritmo frenético dos carrinhos cheios nos corredores nos dias que antecederam o início da quarentena, por causa da pandemia da Covid-19, resultou em crescimento nas vendas de 12,2% nos primeiros três meses do ano do grupo francês Carrefour, maior rede supermercadista do Brasil. O faturamento da companhia no primeiro trimestre alcançou R$ 15,9 bilhões, ante R$ 14,1 bilhões registrados entre janeiro e março de 2019.

 

Os resultados do trimestre mostram que o apetite não foi afetado pelo isolamento social. Um dos reflexos diretos foi a decisão de contratar 5 mil funcionários para incorporar aos 87 mil colaboradores da rede. Um aumento substancial de 6% no quadro. Para a alta direção da companhia, não há exagero ou precipitação. “Buscamos crescer de maneira orgânica”, diz o CEO do grupo no País, Noël Prioux.

 

Os novos contratados – por meio de processo seletivo on-line – passam a ocupar espaços deixados por funcionários afastados e que se enquadram no grupo de risco do novo coronavírus, além de atuar nas plataformas digitais de entrega, cujas operações dispararam desde o início do isolamento social. Quando parte do time afastado estiver de volta, os contratados serão realocados nas 30 novas lojas do grupo, compradas do Makro em fevereiro por R$ 1,95 bilhão. Essas unidades serão incorporadas à bandeira Atacadão, que integra o grupo francês. Ao todo são 698 lojas (entre hipermercados, drogarias, postos, conveniência), das quais 190 da marca de atacado e varejo do grupo. A perspectiva é de que as novas unidades possam ser abertas ao público entre o fim do ano e início de 2021, caso o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprove a aquisição até setembro.

 

Disputa acirrada 

 

A compra das lojas vai ser decisiva para aumentar a distância entre a rede e seu principal concorrente em solo brasileiro, o Grupo Pão de Açúcar (GPA), controlada pelo maior rival do Carrefour, o também francês Casino. Enquanto o Carrefour fechou 2019 com faturamento de R$ 62,2 bilhões, o GPA vem na cola, com R$ 61,5 bilhões. Uma diferença de 1%. A estratégia de aquisição envolve a expansão não apenas numérica, mas também geográfica. “A localização foi um fator importante”, diz Prioux. “E agregando à bandeira Atacadão, vamos conseguir ampliar as vendas e atingir algumas cidades onde não tínhamos presença.” Do total das novas lojas, oito estão no Nordeste, sete no Rio de Janeiro e três no Rio Grande do Sul. Nenhuma delas em São Paulo. “Essa aquisição vai representar um crescimento equivalente a um ano e meio”, afirma o CEO.

 

A aposta também faz sentido quando olhada no detalhe. A rede Atacadão, que faturou R$ 10,8 bilhões no primeiro trimestre, alta de 13,6% em relação aos três primeiros meses de 2019, registrou grande procura por itens de cesta básica, com preços mais baixos quando comprados em quantidades maiores. Colaborou para a performance o fato de que boa parte das redes do varejo, com exceção no segmento de alimentação, estava fechada, a aí os hipermercados viraram também espaços de compras para itens eletrônicos, eletrodomésticos e até roupas.

 

E-commerce

 

Como aconteceu com todo tido de varejo no País durante a pandemia, no e-commerce houve um salto brutal no período. Em comparação ao primeiro trimestre de 2019, a disparada do GMV (volume bruto de mercadorias) alimentar avançou 235%. E para se ter uma ideia serviços de entrega em domicílio representaram 85% do comércio eletrônico do segmento alimentar, ante 61% do registrado no quarto trimestre do ano passado.

 

O presidente da companhia diz que, para garantir o abastecimento das prateleiras durante a quarentena, o Carrefour ampliou o volume de compras com fornecedores, para aumentar em 22 dias o estoque, acrescentando à média de 35 dias à frente. “Com as informações que tínhamos de nossas operações na Europa, conseguimos preparar nossas ações”, diz Prioux. “Em fevereiro, criamos um comitê e fizemos as compras necessárias para garantir o aumento no estoque e garantir os produtos para a enorme demanda”, afirma. E mesmo com a estratégia ela quase não foi o bastante. O estoque de 22 dias deixou as gôndolas em apenas dez. “Os primeiros dias após a quarentena foram de loucura total nas vendas.”

 

O movimento de alta vem sendo percebido por todo o segmento. O primeiro vice-presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Galassi, diz que o Brasil tem uma cadeia de abastecimento forte e estruturada. “O que nos garantiu a reposição dos produtos nas prateleiras para atender os 25 milhões de consumidores por semana”, afirma. “Também garantimos rapidamente os protocolos de segurança tanto para funcionários quanto clientes.” No ano passado, segundo a Abras, as 89,8 mil lojas do setor supermercadista faturaram R$ 378,3 bilhões, correspondente a 5,2% do Produto Interno Bruto (PIB), com 1,9 milhão de empregos diretos.

 

Freio em abril

 

Ainda que com a expressiva alta nas primeiras semanas após o início da quarentena, o segmento sentiu o efeito da desaceleração em abril, o primeiro mês cheio do isolamento social, conforme dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada na terça-feira (16) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O varejo todo recuou 16,8% em abril deste ano em relação a abril de 2019. Em contrapartida, o setor supermercadista registrou alta de 4,7%. Foi o único dos oitos segmentos dentro da pesquisa que teve aumento. Mas quando a comparação é sobre março deste ano, nota-se o freio. As vendas no setor caíram 11,8%, o que se explica pela corrida por suprimentos logo no início da pandemia no Brasil.


Mas a performance do grupo Carrefour segue de olho na expansão. Cenário oposto ao vivido há pouco mais de uma década, quando rumores davam conta da saída da marca do País, justamente no momento em que seu principal concorrente na França começava a buscar espaço no Brasil, assumindo o controle do GPA, então nas mãos de Abílio Diniz. Hoje, por meio da Península Participações, Diniz é um dos maiores acionistas globais do Carrefour. “Foi um momento difícil, mas conseguimos uma grande retomada”, diz Prioux.

 

Para ele, o Brasil é muito importante para o Carrefour. “Temos crescimento, resultado e confiança para passar muito bem pela crise econômica.” As ações da companhia na B3 seguiram a gangorra da economia. No dia 1º de junho, estava em R$ 18,40. Na terça-feira (16), fechou em R$ 19,00. Ainda assim, segue abaixo dos R$ 21,80 de 24 de março, logo após o início do isolamento social.

 

Para João Galassi, da Abras, a volta da crise dependerá de fatores que vão da curva da retomada ao volume de crédito do sistema bancário. Mas, além das questões monetárias, um fator será decisivo: a qualidade do serviço. “Enquanto não houver vacina, o consumidor vai continuar buscando segurança no atendimento.”


Fonte: Isto é Dinheiro 


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