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17/09/2015 12:42 - Gigantes de cerveja mais perto da união

                                   Belgo-brasileira AB Inbev fará oferta de até US$ 100 bi por SABMiller. Juntas, terão um terço do mercado global



A AB Inbev, das marcas Brahma e Budweiser, prepara oferta para comprar a sul-africana SAB Miller por cerca de US$ 100 bilhões. Com isso, terá um terço do mercado global. Foi dada a largada para o casamento do ano. O pedido de enlace deverá ser feito pela Anheuser-Busch InBev (AB InBev), maior fabricante de cervejas do mundo, à rival e segunda maior cervejaria do mundo SABMiller. A companhia belgo-brasileira pretende fazer uma oferta para adquirir a empresa britânica, embora uma proposta formal ainda não esteja pronta. Se a união se concretizar, a nova empresa — com valor estimado em US$ 275 bilhões, maior do que o Facebook, por exemplo — será responsável por uma em cada três cervejas produzidas no mundo e controlará cerca de metade do lucro do setor.

A fusão entre a dona das marcas Budweiser e Stella Artois e o grupo por trás de Peroni e Grolsch — apelidada pelo mercado de “megabrew” (megacervejaria, em tradução livre) — seria classificada entre uma das seis maiores aquisições na História e a maior de um ano marcado pelos maiores acordos já firmados desde 2007.

Corrida contra o tempo

O casamento custaria para a Inbev US$ 86,8 bilhões, segundo estimativa da consultoria americana Dealogic, acima da fusão número 1 do ano entre a petroleira Shell e o BG Group, avaliada em US$ 81,5 bilhões. No mercado, porém, há estimativas que apontam que o negócio pode chegar a até US$ 100 bilhões.

Em comunicado, a SABMiller disse ter sido informada de que a AB InBev pretende fazer uma proposta, mas ressaltou não ter dados sobre os termos.“O conselho da SABMiller confirma que a Anheuser-Busch InBev informou sua intenção de fazer uma proposta para adquirir a SABMiller. O conselho analisará e responderá, apropriadamente, a quaisquer propostas que possam ser feitas”, disse.

A belgo-brasileira respondeu: “A AB Inbev confirma que fez uma abordagem ao conselho da SABMiller a respeito de uma combinação das duas empresas”.

A divulgação da intenção da Inbev desencadeia um cronograma de 28 dias para uma oferta formal. De acordo com as regras britânicas de aquisição, a empresa tem até 14 de outubro para concretizar a oferta ou desistir do negócio. Se deixar a transação, a empresa fica numa quarentena de seis meses até poder apresentar nova proposta.

A união entre as duas companhias era uma hipótese bastante comentada no mercado nos últimos dois anos. O negócio seria uma nova oportunidade ao trio de brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, que comandam o fundo 3G Capital, e são acionistas da Inbev, de exercer sua gestão focada em corte de custos. Nos últimos anos, o 3G tem comprado empresas de alimentos dos EUA, incluindo Heinz, Kraft e Burger King.

Analistas avaliam que, além da possível redução de custos, a operação daria mais fôlego às companhias na luta por mercados em expansão fora dos Estados Unidos, especialmente América Latina, África e Ásia. A aquisição pode marcar também a última fase de um forte processo de consolidação na indústria cervejeira mundial.

“Para além da economia financeira e de custos deste potencial negócio, há pouca dúvida de que as macro cervejarias estejam olhando para o horizonte desta era de fusões e aquisições. Inovação e experimentação em pequena escala vão decidir trajetórias de crescimento futuro, se não tamanho e margens”, afirmou o analista Spiros Malandrakis, da Euromonitor.

Ironicamente, a indústria se consolidou no momento em que as preferências dos consumidores de cerveja têm se fragmentado. Grandes fabricantes enfrentam o desafio da desaceleração em mercados como a Europa e os EUA, onde os consumidores estão trocando as cervejas industrializadas por marcas artesanais e vinho.

— Empresas grandes pensam grande, por força de seu modelo de negócio. Claro que influencia a cultura da organização, o perfil dos sócios, como é o caso do Lemann, mas, se a empresa não o fizer, um rival vai pensar por ela. O limite do crescimento é a estrutura do mercado vigente. E na Ásia e África, a AB Inbev não está no topo ainda — afirma Antonio Carlos Morin, coordenador da pós-gradução de Gestão de Negócios e Inteligência Competitiva da ESPM-Rio, acrescentando que um possível impacto no Brasil seria o aumento de marcas. — Na prateleira de cerveja, sempre cabe mais uma marca.

O anúncio de um possível negócio fez as ações da SABMiller subirem 22%, elevando seu valor de mercado a cerca de US$ 93 bilhões, enquanto a AB InBev, em Bruxelas, registrou alta de 12%. No Brasil, as ações da Ambev avançaram 2,04%. Outras marcas cervejeiras viram suas ações se valorizarem, numa espécie de abertura da temporada de casamentos — a AB InBev não é a única interessada em aumentar seu portfólio de produtos.

O negócio depende da aprovação do Altria Group, o maior acionista da SABMiller, com 27%. A AB InBev terá de convencer a família de Alejandro Santo Domingo, um dos clãs mais ricos da Colômbia e que detém fatia de 14%. Dada a dimensão das empresas, a AB InBev teria de concordar com venda de ativos, a fim de obter aprovação regulatória para um negócio que envolve operações em vários países, incluindo EUA e China.

Analistas dizem que a SABMiller teria de deixar a joint venture que mantém com a americana Molson Coors Brewing, chamada MillerCoors, com 30% do mercado americano. A AB InBev teria de vender fatia de 49% que a SABMiller tem na CR Snow, sua parceira na China. A SABMiller detém 20% na empresa de bebidas francesa Groupe Castel.

A combinação entre as duas empresas pode reconfigurar o mercado publicitário. Nos EUA, a AB Inbev é o 22º maior anunciante, tendo gasto quase US$ 1,6 bilhão em 2014, enquanto a MillerCoors está na 45ª posição, com cerca de US$ 890 milhões, segundo dados da publicação especializada Advertising Age.

DEPENDÊNCIA MENOR

As dificuldades econômicas de Brasil e China, dois dos maiores motores do setor cervejeiro nos últimos anos, podem ter levado a AB InBev a acelerar seus planos de compra da SABMiller, de acordo com o analista Ross Colbert, do Rabobank International. A queda no consumo de cerveja nos mercados emergentes “está dando um impulso maior à consolidação”, segundo o analista.

A aquisição da SABMiller daria à AB InBev acesso a mais de US$ 7 bilhões em receitas na África e a US$ 4 bilhões de vendas na Ásia, reduzindo a dependência em relação às Américas e ao Brasil. O negócio aumentaria a presença da AB InBev em países como Colômbia, Equador e Peru.



Veículo: Jornal O Globo


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