


O FMI SHOW 2008
As tendências do varejo nos Estados Unidos
Segurança Alimentar, Sustentabilidade, Meio Ambiente, Diversidade, Saúde e Bem Estar e Economia de Energia foram alguns dos temas abordados no congresso e feira do FMI Show, realizado em Las Vegas. Veja as tendências de consumo e como elas se comparam ao mercado brasileiro
O mais famoso encontro mundial do varejo, que com a difusão de conhecimento apoiou o desenvolvimento do supermercadismo internacional, inclusive do Brasil, está se reciclando. Pela primeira vez o congresso e a feira do FMI saíram de Chicago, onde a feira perdeu espaço nos últimos anos, e chegou a Las Vegas, o grande centro de entretenimento americano, completamente remodelada.
Com 800 expositores e boa representação da indústria alimentar dos Estados Unidos, o FMI Show reuniu em maio passado milhares de profissionais, entre varejistas e atacadistas vindos de mais de 100 países, que puderam conhecer novidades em produtos e estratégias para satisfazer clientes e expandir negócios. Do Brasil, o evento recebeu uma comitiva de supermercadistas e fornecedores, organizada pela Abras, na 30a Viagem Técnica Abras ao FMI Show, que reuniu 104 empresários e executivos. O grupo também visitou as melhores lojas da região e a comitiva conheceu verdadeiros casos de sucesso em Las Vegas e Phoenix.
Além da feira de alimentos e bebidas, no mesmo espaço, num andar do enorme e deslumbrante hotel e cassino Mandalay Bay, estavam agrupadas as feiras Marketechnics, focada em tecnologia, a United Fresh Marketplace, com estandes de perecíveis e itens prontos para consumo, e a United Fresh Tech, com soluções técnicas e inovações na área de segurança alimentar.
O congresso do FMI, com uma plataforma de temas bem ampla, da economia americana em recessão à tecnologia de ponta e situações especiais como Farmácia, continua sendo um dos melhores referenciais dos caminhos do auto-serviço no mundo, pela divulgação de importantes pesquisas sobre o setor supermercadista nos Estados Unidos e pelas tendências que aponta para o varejo mundial.
“O FMI Show se mantém como uma grande oportunidade de conhecimento para os varejistas brasileiros. Talvez menos pela feira, porque o nosso mercado está muito atualizado, apesar das diversas novidades que encontramos por lá, com equipamentos e soluções sustentáveis que respeitam o meio ambiente, e muito mais pela qualidade dos temas discutidos no seu congresso e nos dados divulgados em suas pesquisas. Precisamos estar sempre antenados a respeito do que ocorre por lá, porque continua a ser o grande parâmetro para o nosso mercado”, afirma Sussumu Honda, presidente da Abras.
Speaks 2008
A principal palestra do congresso do FMI, proferida pelo presidente e CEO da entidade, Tim Hammonds, como acontece todos os anos abordou a ampla pesquisa “The Food Retailing Industry Speaks”, que mostra dados do setor, especialmente do ano anterior, no caso 2007, e aponta tendências. Trata-se de uma ampla visão do mercado americano, que serve como baliza para o que pode acontecer no varejo mundial.
Hammonds falou de questões que preocupam hoje os empresários do varejo nos Estados Unidos, como:
l o aumento dos preços de alimentos, com o crescimento de mercado de países em desenvolvimento, como a China;
l a escolha das melhores formas de sustentabilidade e os caminhos para as empresas do setor supermercadista aderir a elas;
l a grande concorrência no setor, com foco em conveniência, preço e qualidade, especialmente com o canal de fast food;
l os preços das commodities e a expectativa de falta de energia no mundo;
l a necessidade de transparência nas relações de consumo (supermercado-consumidor) e nas relações de negócios (supermercado-fornecedor);
l a segurança alimentar (e os graves problemas de recall de alimentos industrializados) e, portanto, a exigência do consumidor em saber o que está consumindo;
l a tendência dos alimentos orgânicos e da conscientização dos hábitos saudáveis de consumo.
Essas são questões que preocupam os empresários do setor em todo o mundo, mas a visão dos norte-americanos, pontuada no FMI Show, foi calcada principalmente no momento ruim que a economia dos Estados Unidos vive, com a queda de poder de compra do dólar no cenário mundial e com uma recessão em curso, mesmo que muitos economistas prevejam que passará rapidamente.
De qualquer forma, o ritmo atual do setor supermercadista nos EUA continua bom, pelos números apontados no Speaks 2008. As vendas dos supermercados aumentaram 4,6% em 2007, o melhor desempenho em mais de uma década. Estes ganhos, porém, são impactados pela taxa inflacionária de 4,2%, ou seja, o aumento do preço dos produtos justifica em parte esse resultado. Além disso, o início de recessão fez os consumidores trocarem os fast foods pelos supermercados.
Estratégias
Os varejistas americanos se mostraram divididos na pesquisa quanto ao efeito de uma recessão na economia: 58,3% dizem acreditar que haverá redução de vendas e lucros, ao passo que 41,7% prevêem aumentos. O pessimismo ainda ganha, gerando impacto negativo nesse grande mercado.
Em 2007, oito em cada dez supermercadistas utilizaram cinco estratégias principais de negócios com taxas relativamente altas de efetividade (medidas em uma escala de 1 a 10):
l Ênfase em perecíveis: 97,3% utilizam tal estratégia com avaliação de efetividade de 8,4%.
l Marca própria: 90,4%, com taxa de efetividade de 6,9%.
l Ênfase em produtos naturais/orgânicos: 89%, com taxa de 7,3%.
l Ênfase em bem-estar do consumidor e saúde de família: 84,9%, com taxa de efetividade de 6,5%.
l Experiência de compra única, design de loja e seleção de produto: 82,2%, com taxa de 7,6% de efetividade.
Mix de produtos
Em termos de tendências de produtos oferecidos pelos supermercados, os itens de marca própria continuam em alta, pela rentabilidade que trazem à indústria supermercadista norte-americana. Outro referencial forte são as comidas frescas e os pratos prontos, uma alternativa conveniente para o consumidor, que faz as lojas se colocarem como opção para o “consumo em casa” fácil e rápido, diante da tendência do cliente de substituir algumas idas aos restaurantes e fast foods, muito freqüente naquele mercado.
Os pratos prontos se tornam cada vez mais uma fonte de referência para os supermercadistas, sendo trabalhados por 94,9% das lojas. Um dado interessante é que por lá é crescente a procura de clientes pelas idas rápidas à loja para compra do jantar: 50,6% das lojas oferecem opções de serviços, com rotisserie e delicatessen, pratos quentes e frios, ao passo que em 2006, eram 36,8%. Tudo isso motivado pelas pesquisas dos anos anteriores, que apontavam a grande concorrência dos restaurantes com o setor supermercadista, como já acontece no Brasil.
Pela pesquisa, os supermercados nos EUA administram os seus próprios orçamentos, equilibrando o impacto de aumentos de custo em diversas áreas. Estes esforços contribuem para um melhor desempenho em diversas áreas:
l Produtividade do trabalho: as vendas por hora aumentaram de U$ 122,14, em 2006, para U$ 138,90, em 2007.
l Produtividade de espaço: as vendas por pé quadrado cresceram de 7,3% para 8,1%.
Focar a diversidade abordando públicos específicos, como o hispânico, está quebrando tabu nos Estados Unidos. Lá os gastos com publicidade, de acordo com a pesquisa, permaneceram em 1% do total das vendas, com foco menos em veículos de massa e mais em veículos com alvos e objetivos mais específicos, como a mídia de rádio e de mala direta. As companhias começam a usar novas mídias, inclusive website, blogs e mensagens de texto on-line. Uma tendência que também dever ser bem explorada por aqui.
Tendência de consumo
Outra pesquisa bem divulgada pelo FMI Show, na qual vale a pena prestar atenção pelo que sinaliza para o mercado brasileiro, é a Grocery Shopper Trends. Na sua edição deste ano, ela mostrou que os preços mais elevados de alimentação e combustíveis, além de outras pressões econômicas, estão causando impacto significativo na maneira como os consumidores americanos compram, cozinham e comem fora.
As preocupações econômicas estão compelindo os americanos a comer mais em casa e com menos freqüência em restaurantes. Neste ano, as famílias estão indo apenas 1,2 vez por semana aos restaurantes. Em 2007, iam 1,3 e em 2006, 1,5 vezes.
Da mesma forma, agora os consumidores reduzem as compras de comidas mais requintadas (67%) e optam por mais artigos de marca própria (60%), além de reaproveitar mais a comida (58%). O alto custo do combustível também contribui para o declínio no número idas ao ponto-de-venda: menos de duas vezes por semana, pelo segundo ano consecutivo, com 1,9 visitas semanais.
Quando vão decidir o local de compras, 37% dos consumidores apontam “preços baixos” como o fator preponderante para a decisão. Em 2007, essa era a resposta de 31%. O segundo fator mais importante ficou bem distante: é a “conveniência do local”, importante para 13% dos consumidores.
Outra variável de análise mostra que o enfoque dado pelas últimas pesquisas do FMI na qualidade da comida em casa também surte resultado. Os consumidores identificam a comida feita em casa como mais saudável. Pelo menos 91% dos consumidores consideram mais saudável jantar em casa. Além disso, as famílias economizam dinheiro, pois uma refeição de restaurante custa quase duas vezes mais: U$ 12, em média, comparada com o custo caseiro de US$ 5.
O relatório aponta que as refeições em casa trazem também um benefício social para as crianças e a família. Algumas pesquisas apontam que crianças que jantam regularmente com as suas famílias em casa são mais saudáveis, têm desempenho escolar superior e menor propensão ao uso de drogas.
Outra constatação do relatório é a confiança na segurança do alimento adquirido nos supermercados: 81%. Porém, essa confiança é frágil. Apenas 11% confiam plenamente (percentual inferior aos 15% registrados em 2007) e 70% dizem estar razoavelmente confiantes.
Nutrição é uma questão fundamental para os consumidores cada vez mais preocupados com a saúde e o bem-estar, pois 41% deles dizem estar muito preocupados sobre o conteúdo nutricional dos alimentos e 47% “um pouco interessados”. Cerca de 62% dos consumidores afirmam acreditar que as suas dietas poderiam ser mais saudáveis, enquanto 12% acham que ela poderia “melhorar muito”.
Os supermercados de lá tentam responder à tal demanda por saúde do consumidor com produtos e serviços. Por exemplo, 82% das lojas vendem comidas naturais ou orgânicas, acima de 80% em 2007 e 72% em 2006. Além disso, oferecem clínicas de saúde em 9% das lojas, e em 5% oferecem os serviços de especialista para fornecer orientação nutricional ao consumidor.
De qualquer forma, o problema obesidade ainda é crônico no país e depende, como bem sinalizou Hammonds, de um novo hábito de consumo com muito menos desperdício de alimentos, ainda a ser implantado.
Segundo o relatório, 28% dos consumidores não sabem o que vão comer duas horas antes do jantar em dias de semana. Esse percentual salta para 35% nos finais de semana. Estes consumidores criaram um grande mercado fast food e serviços de entrega (delivery). Os supermercados agora respondem com soluções de refeição e áreas de parada rápida para o jantar. Os que apresentam tais áreas de consumo rápido, como delicatessen, aumentaram de 36,8% para 50,6% em 2008.
