Separar o material reciclável evita prejuízos

A geração de resíduos na sociedade moderna diz muito sobre o estilo de vida corrido e em busca de conforto ou higiene, mas também indica problemas a serem resolvidos, por vários aspectos. Tudo que “vai para o lixo” teve um custo de produção. E terá um novo custo para sua destinação final. Mais do que isso, muito do que é descartado diariamente poderia representar benefícios para a sociedade ou ao menos reduzir prejuízos. 

Estima-se que o Brasil desperdice, a cada ano, cerca de R$ 10 bilhões só por falta de reciclagem e destinação adequada de resíduos sólidos, além de uma política de logística reversa que gerencie o retorno de embalagens e outros materiais descartados de volta à indústria, de acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente. 

O problema ainda tem outros aspectos. Se no mundo todo, a FAO – braço da ONU responsável pelo setor de agricultura e alimentação – avalia que um terço de todos os alimentos produzidos vai para o lixo, outros números endossam o gigantismo do desperdício. 

Levantamento feito pela ABRAS – Associação Brasileira de Supermercados – aponta que todos os anos vão para o lixo cerca de 4 bilhões de reais, só nas seções de açougue, FLV (frutas, legumes e verduras), padaria e peixaria. 

A situação é ainda mais grave quando consideramos que o agronegócio gasta muita água, energia e combustível para produzir e transportar esses itens. E que a pecuária ainda é responsável pelas altas quantidades de metano que poluem o meio ambiente e afetam a camada de ozônio. 

Ao reduzir a quantidade de lixo gerada, portanto, estamos contribuindo em diferentes frentes para a proteção da natureza e de recursos para uso futuro. 

Economia 

A destinação correta do lixo também mexe com a economia e as finanças na sociedade. Ao separar o material reciclável corretamente, por exemplo, evita-se a extração de mais matéria prima, porque novos objetos serão produzidos a partir da reciclagem. Separar plástico, papel, vidro e metal do restante dos resíduos em casa é um passo importante. E na capital paulista, é muito simples participar: basta separar o material em casa e deixar na rua pouco antes do horário para a coleta seletiva, na data correta. O serviço é prestado na zona sul e leste da capital paulista pela concessionária Ecourbis. Para saber quando o serviço é prestado na via onde mora, acesse: ecourbis.com.br/coleta/index.html. 

Renda 

O que chamamos de “lixo” é também uma fonte de renda para muitas famílias. Milhares de pessoas na capital sobrevivem graças aos recursos provenientes da venda de material reciclável. 

Há ainda ONGs e artesãos que se beneficiam dos itens recicláveis, transformando-os em outros objetos. É o que se chama, na atualidade, de upcycling, ou seja, a transformação de uma peça de roupa ou objeto em outra coisa, com novas ou similares funções.

Esse processo tem ainda como característica positiva o fato de usar pouca energia e consumir poucos recursos em sua transformação. 

Upcycling 

Paulo Antônio da Silva Júnior, por exemplo, tem 41 anos e, durante muito tempo a transformação de objetos que ninguém queria mais foi fonte principal de renda em sua vida. “Comecei a trabalhar com reciclagem para conscientizar estudantes. Mostrava a eles que é possível ganhar dinheiro transformando aquilo que as pessoas chamam de lixo”, relembram. 

No extremo sul da capital paulista, ele transformava pneus em vasos estilizados e canteiros para jardins; canos de PVC em luminárias, garrafas de vidro em lustres e pendentes, entre outras ideias. Até para formar uma horta orgânica em escola pública os velhos pneus foram utilizados. 

Atualmente, Paulo trabalha como vigilante. Mas, diz que a experiência com material descartado pela população transformou sua vida e de sua família. Viúvo que se casou novamente, ele mora com a esposa, o filho e um enteado. “Hoje a gente trabalha de uma forma mais preocupada com o meio ambiente. Não utilizamos canudos e copos só se forem de papelão, porque não gostamos de usar descartáveis”, garante. 

Ele ainda mantém o hábito de reaproveitar itens de forma criativa para evitar a geração de lixo. Uma caixinha de leite pode virar um vasinho para flores. Na casa dele, não há desperdício de comida e alguns restos de cascas de frutas e legumes ele transforma em adubo para as plantas de seu jardim – coisa que aprendeu quando trabalhava em hortas orgânicas junto a estudantes. 

Essa veia de artesão também ganha destaque quando encontra alguma tora de madeira abandonada, por exemplo, que será trabalhada e vai se tornar um belo banco para o jardim de sua própria casa. 

O “upcycling” ainda tem outra importância: reaproveitar materiais que não podem ser reciclados ou cujo processo de reciclagem é muito caro e que acabariam nos aterros, que têm capacidade limitada e, portanto, tempo de vida curto. 

Um exemplo é a cortiça. Na zona sul paulistana, a Ong Adere trabalha com rolhas de vinho e outros itens de cortiça que são transformados em porta-joias e porta-lápis, suportes para panelas e copos, bandejas e vários outros artigos domésticos. As pessoas com deficiência intelectual atendidas pela Ong ainda criam peças de decoração e artesanato fazendo o upcycling com bijuterias, pedaços e madeira e outros artigos. 

Assim, as oficinas criativas e expressivas -tecelagem, marchetaria em cipó e rashi, papel reciclado, mosaico, papietagem e colagem artística usam da arte terapia com dupla finalidade: atender e formar os frequentadores da Ong além de produzir belos objetos reciclados. 

Compre reciclados 

Outra observação importante é de que é necessário também comprar itens feitos de material reciclável. Em primeiro lugar, porque não basta encaminhar os materiais descartados para reciclagem, mas é preciso estimular a aceitação desse material de volta no mercado. 

Além disso, é uma forma de reduzir o preço do produto reciclado: quanto maior a produção de itens feitos a partir de material descartado reciclável, maior será a procura por ele e novas tecnologias tendem a surgir para baratear o processo de transformação e reciclagem. 

Fonte: Jornal São Paulo Zona Sul