Por um consumo mais consciente

Março é o mês do consumidor, período que inspira bem-vindas reflexões sobre os direitos de todos os adquirentes de produtos e serviços, mas que também deve ser aproveitado para o debate dos deveres inerentes a todos os agentes do consumo, inclusive o próprio consumidor. 

Essa pauta, a propósito, torna-se cada vez mais urgente por causa da alta prevalência das perdas e desperdícios de alimentos no Brasil e no mundo. Este é um problema que fomenta a insegurança alimentar, ou seja, a indisponibilidade de alimentos para parte da população, e ainda gera prejuízos para muitos setores. 

Todos os “atores do consumo” contribuem para as perdas e desperdícios de alimentos. No campo, a problemática ocorre por causa da ineficiência de processos produtivos e, também, pelo fato de muitos produtos não apresentarem o padrão estético exigido pelo mercado. 

Outros gargalos estão na distribuição, no manuseio do varejo e na forma como o consumidor lida com os alimentos. Afinal, o desperdício pode ocorrer por fatores culturais, como o gosto pela abundância à mesa, compras excessivas, armazenamento inadequado ou, até mesmo, desinteresse pelo consumo das sobras.

Felizmente, é possível notar maior engajamento por parte das iniciativas públicas e privadas para combater este cenário e incentivar o exercício de um consumo mais consciente e responsável. O Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis (PPCS), do Ministério do Meio Ambiente (MMA), é uma das iniciativas que estão em curso e que tem este objetivo. 

Nesta entrevista, o secretário-executivo do MMA, Edson Duarte, fala sobre a problemática do desperdício e revela os próximos passos previstos pelo PPCS, que acaba de iniciar o seu segundo ciclo de ações. 

Qual é o tamanho do desperdício de alimentos no mundo? 

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura [FAO], no âmbito mundial, entre um quarto e um terço dos alimentos produzidos, anualmente, se perde ou é desperdiçado. Isso equivale a cerca de 1,3 bilhão de toneladas de alimentos. São perdidos 30% dos cereais, entre 40% e 50% das raízes, frutas, hortaliças e sementes oleaginosas, 20% da carne e produtos lácteos e 35% dos peixes. 

Em relação ao Brasil, quanto o País perde com essa problemática? 

No Brasil, são desperdiçadas 41 mil toneladas de alimentos por ano, segundo o World Resource Institute Brasil, uma instituição de pesquisa internacional. Isso coloca o País entre as dez nações que mais perdem e desperdiçam alimentos no mundo. Essa perda é referente a toda cadeia produtiva. 

Como o MMA enxerga a participação dos supermercados na missão de reduzir o desperdício de alimentos? 

As operações supermercadistas têm papel relevante na promoção do consumo sustentável. As empresas varejistas têm grande potencial de contribuição no campo da responsabilidade social e da informação, principalmente por sua característica de contato direto com o consumidor. A capilaridade territorial e o amplo leque de relações do varejo reforçam sua vocação como agente de transformação social. 

O que o ministério está fazendo para fomentar uma nova visão de consumo no País? 

O MMA busca direcionar sua abordagem para questões referentes à adoção de hábitos de consumo sustentável, ao estímulo à produção sustentável e ao incentivo da reciclagem e reutilização dos resíduos sólidos, bem como à destinação  ambientalmente adequada dos rejeitos. Neste sentido, o Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis (PPCS) é o documento norteador das ações de governo, do setor produtivo e da sociedade que direcionam o Brasil para padrões mais sustentáveis de produção e consumo. 

O que é, exatamente, o PPCS?

O PPCS, lançado em novembro de 2011, nasceu da necessidade de fomentar dinâmicas e ações que mudem os paradigmas de produção e consumo no Brasil. O plano articula as principais políticas ambientais e de desenvolvimento do País, em especial as Políticas Nacionais de Mudança do Clima e de Resíduos Sólidos, auxiliando no alcance de suas metas por meio de práticas produtivas sustentáveis e da adesão do consumidor a este movimento. Para orientar sua implementação, o PPCS contempla uma série de ações com enfoque participativo e de comunicação. Assim, todos têm a oportunidade de se engajar nesse processo como agentes de transformação, seja fortalecendo e conferindo escala às ações em curso ou desenvolvendo novas iniciativas voltadas à produção mais limpa e ao consumo sustentável. Dentro do plano, estão elencados pactos setoriais, ações governamentais, iniciativas voluntárias, ações de parceria e forças-tarefa. Estes são os instrumentos para implementação deste novo modelo de desenvolvimento. 

Quais foram os principais passos dados pelo PPCS desde que foi iniciado? 

No primeiro ciclo, de 2011 a 2014, foram elencadas seis linhas de trabalho prioritárias: Educação para o Consumo Sustentável, Compras Públicas Sustentáveis, Agenda Ambiental na Administração Pública, Reciclagem de Resíduos Sólidos, Varejo Sustentável e Construções Sustentáveis. Para apoiar as ações previstas no plano, foi criado um comitê gestor, formado por membros de outros ministérios, de empresas e da sociedade civil. Durante este período, houve diversas ações relacionadas às seis linhas prioritárias, como processos de capacitação profissional, campanhas destacando a importância do consumo consciente, campanhas e incentivo à reciclagem, promoção e aumento da adesão à Agenda Ambiental na Administração Pública, incentivo à abertura de lojas ecoeficientes, aumento da oferta de produtos sustentáveis, mudanças nos padrões de construção e avanços no que diz respeito à sustentabilidade das compras públicas. 

Para os próximos anos, quais são as ações previstas em relação ao PPCS? 

O plano entrou em seu segundo ciclo, composto, agora, por dez eixos temáticos, que são: Compras Públicas Sustentáveis, Finanças Sustentáveis, Indústria Sustentável, Construção Sustentável, Varejo Sustentável, Agricultura Sustentável, Consumo Sustentável, Agenda Ambiental na Administração Pública, Gestão de Resíduos Sólidos e Relatos Corporativos de Sustentabilidade. Essas agendas temáticas trazem no seu escopo dois pilares fundamentais para seguir no caminho da transição, que são o aumento da eficiência dos processos produtivos e a mudança de padrão de consumo da população. Para tanto, várias propostas de ações estão previstas e serão implementadas por um comitê gestor ampliado, coordenado pelo MMA, do qual participam entidades governamentais, empresariais e da sociedade civil. Essas ações estão voltadas a contribuir com o alcance do objetivo principal do PPCS, que é fomentar dinâmicas e ações, no médio e longo prazo, que mudem o atual paradigma de produção e consumo, contribuindo significativamente para o desenvolvimento sustentável da sociedade brasileira. 

Fonte: Revista SuperHiper – edição Março de 2018

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