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Neto do comércio, filho do supermercado 04/04/2017 17:50:32

A trajetória de João Sanzovo Neto, o novo presidente da Abras. Ele comandará a entidade pelos próximos dois anos e, nesta Exclusiva, além de contar sua história, fala de sua relação com o setor, de seus objetivos à frente da Abras e da conjuntura político-econômica do País Cresci vendo meu pai chegar do trabalho, para o almoço, e conversar sobre a empresa, com a minha mãe, à mesa. A gente, criança, vivia fortemente os prazeres e desprazeres de se ter um supermercado. A primeira loja do grupo [Jaú Serve] ficava a um quarteirão da minha casa. Com seis anos, eu e meus primos brincávamos na loja. Com dez, a gente já trabalhava no pacote, ajudava a separar vasilhame. Deixavam a gente separar também os pregos que sobravam das caixas de entrega, para vender depois. Vivíamos a empresa.”


O testemunho, dado com voz serena e sotaque jauense, não deixa dúvida sobre a relação umbilical do recém-eleito presidente da Abras, João Sanzovo Neto, com o setor. O menino, que, com os primos, gostava de pegar azeitonas do barril da loja, agora tem a missão de presidir a entidade nacional dos supermercados. Na sala da presidência da Abras, Sanzovo conversa com SuperHiper, busca na memória detalhes de sua história, que parece ter mais fatos a serem contados do que tempo transcorrido.


O começo, em qualquer área, é sempre mais complicado e, nesse sentido, Sanzovo agradece muito à família, que lhe deu todas as condições necessárias para se desenvolver. Seu avô era proprietário de um armazém de “secos e molhados” e veio dele o capital inicial para o primeiro supermercado dos filhos, o primeiro Jaú Serve.

Esse progresso familiar lhe permitiu, por exemplo, em 1974, aos 16 anos, fazer um intercâmbio em Detroit (Estados Unidos — EUA). Foi a primeira experiência de Sanzovo no país em que o supermercado foi inventado e que, até hoje, é a principal fonte de inovações do setor.


Em 1975, um ano depois de voltar ao Brasil, Sanzovo mudou-se para a capital paulista para cursar o 3º colegial e fazer cursinho pré-vestibular. Em 1976, ingressou na faculdade de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV-EASP). “Ia fazer Administração de Empresas [AE], mas, quando descobri que Administração Pública era de graça, o lado comerciante falou mais alto. Havia menos vagas, mas eu estava preparado. Além disso, a grade curricular dos cursos tinha pouca diferença. Com um seminário aqui, outro ali, eu compensaria as disciplinas que faltavam para AE.”


Assim que terminou a faculdade, conseguiu mais um intercâmbio, agora, como estagiário num porto que funcionava em regime de autarquia no estado de Nova Orleans (EUA). “Ao fim do estágio, não estava satisfeito. Subi para o norte dos EUA em busca de mais experiência de trabalho. Reencontrei minha família americana em Detroit e, por lá, me empreguei na Domino’s Pizza. Passei por várias etapas: comecei como entregador de pizza e cheguei a supervisor de lojas.”


Nesse meio tempo de estágio, Sanzovo recebeu seu pai nos EUA. Eles fizeram uma visita que seria crucial para o futuro da rede da família. “Conhecemos o centro de distribuição [CD] do Kroger [grande e tradicional varejista dos EUA] e meu pai pôde ver a importância e as vantagens que um recebimento centralizado trazia à operação do negócio."


Em meados de 1980, já no Brasil, casado e com filho, Sanzovo assumiu a direção de Operações do Jaú Serve e, com o apoio dos primos e do experiente consultor, Júlio Casoy, que havia sido contratado para reestruturar a empresa, convenceu os tios a centralizar o recebimento de mercadorias das 14 lojas da rede na época. Um “forte trabalho” foi feito nesse sentido, acompanhado de “primoroso” processo de capacitação dos profi ssionais do Jaú. “O que fizemos, na ocasião, foi o que nos permitiu chegar, hoje, a 33 lojas.” O trabalho de Sanzovo como executivo levou-o, em 1997, à presidência do Jaú Serve. Em 1999, contudo, ele decidiu se candidatar à Prefeitura de Jaú, nas eleições de 2000, e deixou a presidência da rede. Essa não seria sua primeira experiência no mundo político. De 1992 a 1996, fora vice-prefeito e secretário de Indústria e Comércio do município. A campanha, em 2000, foi um sucesso. Embora estivesse bem atrás no início, ao fim, venceu. “Meu mandato se destacou muito na área de saneamento. Tratamos o esgoto da cidade e o rio Jaú ficou limpo. Isso foi fundamental para a minha reeleição, em 2004.”


Multitarefas, Sanzovo, em meio a seu segundo mandato de prefeito, assumiu, também, em 2006, a presidência da Associação Paulista de Supermercados (Apas). O comando da entidade paulista, porém, não foi obra do acaso em sua vida. Há mais de uma década, sua presença na entidade estadual era intensa. Quatro anos antes, já era cotado para a presidência, mas, como estava em seu primeiro mandato como prefeito, não quis. Já em 2006, aceitou. “Foram quatro anos de muito trabalho. Colocamos em funcionamento o sistema de CRM da entidade e engrossamos o corpo de associados, com um forte trabalho junto às redes de compra, iniciado na gestão anterior, por Sussumu [Honda].”


Em seu último ano à frente da entidade, já fora da prefeitura, ele também exerceu a função de secretário da Secretaria de Turismo da Cidade de São Paulo (SPTuris).

Há algum tempo, Sanzovo tem atuado como gestor do Jaú Shopping, empresa da qual o Jaú Serve é acionista. Na rede de supermercados, ele exerce papel de acionista, já que, pelo estatuto da empresa, apenas um dos filhos de cada irmão sócio-fundador pode participar da linha sucessória. “Quando eu saí da empresa para realizar outros trabalhos, meu irmão passou a representar meu ramo da família no conselho.”


Porém, como se vê, não há serviço público, nem intercâmbio nos EUA, nem estatuto, nem gestão de shopping que o afaste do setor em que, literalmente, criou-se e cresceu. Na entidade nacional do setor, Sanzovo esteve como vice-presidente desde 2006 e, de 2012 a 2016, ocupou a Primeira Vice-Presidência. Agora, chegou a hora de assumir o comando da entidade. “É um orgulho para mim, sem dúvida, me tornar presidente da Abras, ainda mais considerando que sou o primeiro ‘pé-vermelho’ a presidir a entidade”, declarou Sanzovo, bem-humorado, na solenidade de abertura da última Convenção Abras, quando foi oficializado presidente da entidade para o biênio 2017-2018.


Presidente, quais são as prioridades para o próximo biênio?

A Abras tem de continuar aumentando sua representatividade institucional junto ao governo federal e ao Congresso Nacional. Vamos dar continuidade ao trabalho maravilhoso realizado pelo Fernando [Yamada], principalmente, por meio da Unecs [União Nacional das Entidades de Comércio e Serviços]. Considerando a conjuntura político-econômica, é possível dizer que temos um momento propício para colocar na pauta do Congresso e do governo nossas reivindicações e pontos de vista, até porque eles vão ao encontro das demandas mais urgentes do País, como geração de emprego e recuperação da atividade econômica.


Em sua opinião, o governo percebe que há sinergia entre o que o setor propõe e o que País precisa para se recuperar?

Sim, os resultados já estão sendo mostrados. Tivemos, recentemente, algumas medidas de flexibilização das leis trabalhistas. A modernização da CLT [Consolidação das Leis Trabalhistas] está andando bem no Congresso. Podemos destacar, também, avanços na regulamentação no segmento de meios de pagamento. Tudo isso em razão de bons trabalhos das entidades dos setores de comércio e serviços.


Essas conquistas mostram a grande força institucional do setor...

Elas mostram, com clareza, que vale a pena contribuir para as entidades de classe, porque elas cumprem seu papel institucional. Não falo apenas da Abras, mas de todas. Estive diretamente mais próximo da Apas e a efetividade do trabalho realizado lá é igualmente destacável.


Já que o senhor falou de uma entidade estadual, como enxerga essa relação Abras-estaduais?

Quanto mais fortes forem as estaduais, mais forte será a Abras e a recíproca é verdadeira, ainda mais considerando a relevância da Abras na esfera federal. São os elos da corrente: a corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco. Ou seja, temos de trabalhar muito e levar muito conhecimento a todas as entidades estaduais. Aí entram os nossos produtos: SuperHiper, Convenção, Escola Nacional... Esses produtos, aliás, têm papel duplo: o caráter institucional é indiscutível, mas eles também não podem ser deficitários, não são filantrópicos. Podemos desenvolver ações filantrópicas também, por que não, mas não com os nossos produtos.


Seja como for, as pautas do setor, mesmo quando não são fi lantrópicas, trazem algum ganho aos consumidores...

A gente percebe que o setor de supermercados, pela concorrência que tem, geralmente defende propostas que, por extensão, acabam beneficiando também o consumidor. Não se vê proposta do setor que possa prejudicar o consumidor. A relação é muito estreita e de ganha-ganha: o que for bom para o consumidor será bom para o supermercado. Com certeza, o fortalecimento institucional da Abras será também o fortalecimento institucional do consumidor.


Falando um pouco da conjuntura, o que esperar da economia brasileira para os próximos dois anos?

A economia brasileira não vai melhorar significativamente em 2017. Não há, no momento, nenhum fato possível que seja capaz de provocar uma mudança significativa no contexto econômico. Temos um cenário de estabilização, de preparação do terreno para, em 2018, recuperarmos a rota e o ritmo de crescimento que apresentamos em outros momentos. Acredito que, com novas eleições, com o aspecto político do País mais bem resolvido e com as concessões que o governo federal está encaminhando na área de ferrovias, portos e aeroportos, o que deverá trazer bons investimentos ao País, as coisas irão melhorar. De qualquer forma, o governo terá de continuar a trabalhar firme nas reformas estruturantes. Tem de aprovar a reforma da Previdência, tem de melhorar, modernizar e simplificar o Brasil sem onerar ninguém, o que, pouco a pouco, está fazendo. O caminho está correto, mas é longo e lento. Os investimentos virão com a melhoria do ambiente econômico e político.


Em termos de ações do governo com impactos imediatos, é possível destacar alguma?

Dentro das possibilidades, medidas estão sendo tomadas: o Banco Central [BC] já está reduzindo a taxa de juros, porque a inflação está cedendo, e está liberando o uso do FGTS no caso das contas inativas, para injetar mais recursos na economia. Enfim, em 2017, acredito, nós vamos finalizar o processo de aragem do terreno, para fazer o plantio e, quem sabe, já começar a colher em 2018. 


A mesma lógica vale para os supermercados?

Em 2016, o setor cresceu 1,58%, conforme o Índice Nacional de Vendas Abras. Para 2017, o Departamento de Economia e Pesquisa da entidade prevê crescimento de 1,3%, o que significa dizer que vale a mesma lógica, sim. [O desempenho previsto para 2017, como se vê, segue em linha com o de 2016. O crescimento é pequeno, mas, vale frisar, em 2016, a base de comparação foi negativa, já que, em 2015, a receita do setor teve queda de -1,9%.]


A crise econômica, de forma bastante clara, tem origem política. O senhor tem uma trajetória política robusta. Qual é a importância de uma reforma política na solução dos nossos problemas conjunturais?

A reforma política, a meu ver, é uma das mais importantes reformas estruturantes a serem feitas. Enquanto a gente não resolver essa situação, que envolve o financiamento de campanha e a própria representatividade da classe política, vai ser difícil avançarmos de forma sólida. Ninguém se sente representado. Porém, há propostas, no Congresso, muito boas, como a do voto distrital misto, que cai como uma luva para resolver dois problemas: de financiamento, porque, quando o voto é distrital, o candidato está muito próximo do eleitor e a campanha fica mais barata; e de representatividade, porque o eleitor do distrito vai se sentir mais bem representado. Cria-se um vínculo maior entre o eleito e o eleitor: o eleito será um cara do distrito do eleitor, que, por isso, estará muito mais inteirado sobre as ações do político. Já o eleito saberá, com mais propriedade, quais são as necessidades dos moradores do distrito. Haverá mais fiscalização. Todos os brasileiros terão representantes em Brasília e estarão mais próximos do poder. Outro aspecto que precisa ser visto é a cláusula de barreiras, para diminuir o número de partidos. Não será possível fazer a reforma política por inteiro, mas, como ocorre com outras reformas estruturantes, deverá ser feita aos poucos.



 

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