*Dr. Jomar Souza
Nosso corpo é constituído na maior parte por água: no adulto, cerca de 65% a 70% do corpo. Portanto, não é difícil entender que ela, a água, é um elemento essencial para nossa sobrevivência. Dificilmente conseguiríamos passar alguns dias sem beber uma gota sequer. Ela também é essencial para a prática de exercícios físicos, e sempre somos estimulados a ingerir uma quantidade adequada para nossa hidratação. O problema acontece quando exageramos.
A água absorvida pelo nosso organismo é o diluente de várias substâncias necessárias para o funcionamento dos órgãos e sistemas. Basta lembrar que a hemoglobina, aquela parte da célula sanguínea chamada hemácia, é que leva o oxigênio para o cérebro, coração, músculos e outras partes. E esse transporte é feito pelo sangue, que tem alta concentração de quê? Água!
No sangue também são encontrados outros elementos vitais: proteínas, glicose, potássio, cálcio, magnésio e sódio, dentre outros.
Se ingeríssemos água acima do necessário para mantermos o funcionamento normal do nosso corpo, inclusive durante os exercícios, estas substâncias se tornariam muito diluídas, chegando aos órgãos e sistemas numa quantidade menor.
O sódio, por exemplo, tem papel fundamental nos processos de contração muscular (inclusive do músculo cardíaco, o miocárdio) e na condução dos estímulos elétricos necessários ao funcionamento do nosso sistema nervoso e do próprio coração. A hiponatremia (nome técnico que indica a diminuição da quantidade de sódio no sangue) poderia causar arritmias cardíacas severas levando, lógico que em casos extremos, ao colapso do sistema circulatório e à morte.
O primeiro sinal de hiperidratação é o ganho de peso durante os exercícios. Nosso suor é produzido para controlar o aumento da temperatura corporal, gerado principalmente pelo processo de contração muscular. Se o indivíduo ingere uma quantidade de água aquém do perdido pela sudorese, ele se desidrata. Consequentemente, o peso ao final da atividade física é menor. Quando esta mesma pessoa ingere água acima do necessário, seu peso aumenta, o que significa um estado de “hiperidratação”.
É por isso que a balança, amada por uns e odiada por outros, é tão importante nos locais onde se desenvolvem atividades físico-desportivas. No momento em que você termina sua sessão de exercícios e seu peso está mais baixo, não pense que é por causa da redução de gordura. Você perdeu água e precisa repor esta perda.
Digamos que uma mulher de 60Kg, após 1 hora de caminhada, esteja agora com 59,5Kg. O que teria acontecido? Ela perdeu 500g de líquido, basicamente. Em linhas gerais, ela deveria ingerir 500ml de água mais cerca de 25%, o que daria um total de 625mL. Ingestões acima desse limite poderiam gerar a hiperidratação.
Mas vamos com calma e nada de deixar de beber água. A hiperhidratação é muito rara em comparação com a desidratação, mesmo quando aquela regrinha acima é ultrapassada. Além disso, a hiperidratação é mais comum nos eventos de ultra-resistência, como o Ironman e as ultramaratonas. Dificilmente nós, "pobres mortais", vamos atingir este ponto.
Portanto, vale a pena lembrar duas frases famosas: "a virtude está no centro" e "a diferença entre o veneno e o remédio está na dose".
Continuem bebendo água, mas não custa dar uma olhadinha na balança!
Dr. Jomar Souza é Especialista em Medicina do Exercício e do Esporte e Diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte – SBME
Fonte:Portal UOl