1. Qual é a sua opinião sobre a evolução das vendas do setor neste ano?
Vimos, pelos últimos indicadores econômicos, que o emprego e a renda continuam aumentando, mesmo que em velocidade inferior à de 2010. Isso vai continuar ajudando a aumentar as vendas nos supermercados, mesmo que com uma demanda menos aquecida do que tivemos no ano passado. Pelo índice Nacional de Vendas Abras, o setor acumula aumento de vendas de 2,79% até março, mas em abril, com a influência da Páscoa, cujas vendas foram em geral acima dos 10% - algumas empresas falam em 20% e 30% nos itens típicos da época -, este número tende a subir. Em 2010, pelo Ranking Abras que acabamos de divulgar, o faturamento do setor chegou aos R$ 201,6 bilhões. Para este ano, nossa estimativa é de 4% de aumento real nas vendas e também 4% em volume.
2. O aumento dos juros e a tendência de limitação de crédito ao consumidor podem prejudicar as vendas do setor?
O quadro atual de estabilidade de preços dos alimentos, comparado ao que vivemos no ano passado, quando enfrentamos o aumento de preços de diversas commodities, é positivo para as vendas de alimentos do setor, caso da maioria das lojas. A tendência de diminuição de crédito, com a alta de juros, apesar de diminuir o ritmo de crescimento da economia acaba, de certa forma, até beneficiando o consumo de alimentos, em detrimento das vendas de bens duráveis. Nosso setor é muito mais sensível ao fator renda do que ao crédito.
3. O aumento da inflação deve influenciar no resultado das vendas do setor?
Certamente, é mais um indicador que mexe com o bolso do consumidor. Neste início de ano vimos os impostos como IPTU, IPVA, etc. e o aumento dos serviços em geral (telefone, aluguel, combustíveis) pesaram bastante nesse bolso.
Nosso setor está ciente de que as conquistas que tivemos no Brasil desde 1994 precisam ser mantidas e nós temos de fazer a nossa parte. É sabido que o varejo não é formador de preço, nós repassamos o que negociamos para os consumidores. Nossa tarefa é continuar negociando fortemente com a indústria, que é nossa parceira, sempre com foco no poder de compra do nosso consumidor. Essa é a nossa responsabilidade.
4. As perdas no setor, pela pesquisa Ranking Abras, baixaram de 1,8%, em 2009, para 1,6%, em 2010. Como o setor pode se prevenir?
Nós trabalhamos continuamente na conscientização do supermercadista sobre a importância da prevenção de perdas, com a criação de departamentos e áreas específicas. Sabemos que a prevenção não depende de grandes investimentos, porque muito pode ser feito em termos de prevenção, alterando e melhorando processos de operação da loja. Uma das formas mais eficientes encontradas e implementadas pela Abras para conseguir essa conscientização sobre a importância do tema Perdas tem sido a disseminação de informações, por meio de pesquisas, eventos, reuniões, debates e publicações a respeito.
O Comitê Abras de Prevenção de Perdas tem trabalhado fortemente essa questão.
A 10ª Avaliação de Perdas no Varejo Brasileiro Supermercadista 2010, elaborada pela Abras, em parceria com a Nielsen e GPP/Provar-FIA, mostra outro indicador: em 2009 essas perdas chegaram a 2,33%. São números que nos preocupam e por isso continuamos divulgando a cultura da prevenção de perdas.
5. E quanto ao aumento de impostos, como a Abras trabalha essa questão, que também impacta os ganhos das empresas?
Nós sabemos que a carga de impostos no Brasil é uma das maiores do mundo e, portanto, precisa ser revista para que o país possa continuar crescendo. Vemos com bastante atenção a evolução de temas como a desoneração das folhas de pagamento. Sabemos também das dificuldades de uma Reforma Tributária ampla, como há muito tempo todo o povo brasileiro anseia.
Estamos cientes da complexidade dessa questão e por isso temos nos empenhado na Abras em defender uma bandeira específica e importante, que é pela Redução dos Impostos dos Itens da Cesta Básica. Acreditamos que pequenas reformas nessa área sejam possíveis e essa é uma das mais importantes, pois beneficiaria especialmente milhares de consumidores das classes mais populares, que formam a maioria dos nossos clientes.
Outra questão que nos preocupa bastante nesse tema é a mudança de sistemáticas de impostos que repercutem em maiores despesas para os supermercados, como as recentes mudanças do sistema de tributação do PIS e Cofins da carne bovina, de frango e suína. Neste caso específico, defendemos a isenção dos impostos em toda a cadeia, e não de apenas um elo, como ocorreu. Estamos continuamente solicitando ao governo a revisão dessa sistemática e esperamos ser atendidos.
6. Na sua opinião, o setor deve investir ainda mais este ano?
O setor, como o Brasil, investe bastante para crescer. Cerca de 700 empresas que responderam à pesquisa Ranking planejam investir R$ 3,76 bilhões. Mas, a experiência nos mostra que esse número tende a dobrar, somando os investimentos de todas as empresas do setor, em novas lojas, reformas, tecnologia e qualificação de mão de obra.
Além da construção, ampliação e reforma de lojas, um aspecto muito importante para o setor é o investimento em novas tecnologias.
Na Abras também estamos atentos a este aspecto. Formamos o Comitê Abras de Inovação e Tecnologia trabalhando temas como Etiquetas Eletrônicas e Radiofrequência. Também com o apoio desse comitê, lançamos recentemente, em parceria com a GS1, o Cadastro Nacional de Produtos (GDSN), que vai ajudar em muito o setor e a cadeia de abastecimento na padronização de dados. E em setembro teremos nossa Feira de Tecnologia, paralelamente à Convenção Abras. Não descuidamos do dia a dia do setor, estamos sempre olhando para o futuro.