Em 2009, o Brasil se tornou novamente a oitava maior economia do planeta. Em termos de desenvolvimento humano, porém, estamos apenas na 75ª posição. Apesar dos bons resultados recentes da economia, não podemos nos esquecer de nossas dificuldades históricas
Por Flávio Tayra, gerente do departamento de economia e pesquisa da Abras
O Brasil voltou a ser o país do futuro. Mas se não levar as necessárias reformas estruturais a sério, corre o risco de continuá-lo sendo para sempre. O País melhorou muito nos últimos anos, debelou a inflação, descobriu novas e promissoras reservas de petróleo, trouxe a copa do mundo e as olimpíadas para casa, mas parece estar abandonando várias das reformas que deveriam deixá-lo em sintonia com a ambição de trazer o futuro para mais perto.
Motivações para o “esquecimento” das reformas não faltam. Afinal, o Brasil foi um dos países que se saíram melhor no enfrentamento da crise que abalou o mundo em 2009. Por isso, parece até que não precisamos delas. Enquanto o PIB da Espanha se contraiu 3,6%, o da Rússia caiu 7,9% e o do Canadá registrou queda estimada de 2,4%, o brasileiro apresentou queda de apenas 0,2%, o que, grosso modo, significa estabilidade. Esse desempenho ajudou o país a se tornar novamente a oitava maior economia do mundo.
O resultado em si é ótimo. Mas o país que queremos ser não pode se limitar a isso. Cabe dizer que em termos de desenvolvimento humano a situação não é tão auspiciosa assim (embora venha melhorando, sem dúvida). Segundo o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), elaborado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano), o Brasil perdeu cinco posições em 2009 e caiu para a 75ª posição, bem abaixo dos vizinhos Argentina e Uruguai (49ª e 50ª, respectivamente). O IDH mede condições de renda, educação e saúde, com pesos iguais. Em resumo, a renda no Brasil vem crescendo, mas as condições de saúde e educação não vêm melhorando na mesma medida. O crescimento verdadeiramente sustentável passa pela melhoria conjunta dos três aspectos.
Enquanto as condições sociais melhoram timidamente, as perspectivas econômicas para 2010 continuam boas. As projeções do mercado, colhidas pelo Boletim Focus do Banco Central (01/04/2010), mostram que a expectativa é de que a economia deverá crescer 5,3% no ano. Ganhar posições no ranking das maiores economias é altamente positivo, pois torna o país mais atrativo para investidores externos, além de aumentar seu peso geopolítico.
Mas a mudança precisa ser sustentável, acompanhada de ações que permitam ao país superar suas dificuldades históricas e realmente contribuam para ajudá-lo a melhorar as condições básicas de vida das pessoas. Além dos fatores eminentemente sociais, existem ainda aqueles de ordem econômica. Fatores que ajudaram o Brasil a enfrentar a crise, como a sua estrutura de economia ainda fechada – na qual as exportações ainda têm peso relativamente baixo – se constituíram em vantagem, mas podem se transformar em entraves no longo prazo, por exemplo.
Com a contração do comércio mundial, a maioria dos países viu seu volume de exportações diminuir, o que também ocorreu conosco.
A grande diferença foi que enquanto para a média dos países emergentes as exportações representam cerca de 40% do PIB, no Brasil esse número não passou de 13,4% em 2009.
Ainda temos um vasto mercado com demanda reprimida, mas para alimentá-lo precisaremos crescer de forma mais consistente, e isso passa pela maior participação do País na corrente de comércio internacional.
Marolinha brava
Na comparação internacional, os números brasileiros de 2009 foram excelentes. Mas a crise aqui também foi bem séria, não foi uma marolinha qualquer. Segundo dados do IBGE, a indústria apresentou queda de 5,5% no ano, sendo que todas as atividades apresentaram queda, a maior delas registrada na indústria de transformação (-7,0%), seguida pela construção civil (-6,3%), e pela eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana (-2,4%). A queda da agropecuária também foi forte (-5,2%) e se deveu à redução na produção de culturas importantes, como o trigo (-16,0%), o milho (-13,5%), o café (-12,8%) e a soja (-4,8%).
Apenas no setor de serviços os resultados foram positivos, com crescimento de 2,6% no ano. Intermediação financeira e seguros (6,5%), outros serviços (5,1%), serviços de informação (4,9%), administração, saúde e educação pública (3,2%) e serviços imobiliários e aluguel (1,4%). Por outro lado, os serviços ligados à indústria de transformação tiveram queda: comércio atacadista e varejista (-1,2%) e transporte, armazenagem e correio (-2,3%). Na comparação com o terceiro trimestre, a recuperação econômica já estava expressa no desempenho do comércio (crescimento de 8,1%).
As vendas dos supermercados, na medição da Abras, cresceram 10,65% em termos nominais. A crise não foi tão sentida em virtude do poder de consumo das famílias (que cresceu 4,3% em 2009). As isenções tributárias também contribuíram muito ao reduzir os preços de veículos e eletrodomésticos, no que incentivou o consumo, e a atuação do Banco Central estimulou os bancos a emprestar e preservou as reservas brasileiras em moeda forte. Essas medidas imediatas ajudaram a minimizar os impactos de uma crise que foi muito séria.
Além do curto prazo
As medidas imediatas tiveram muita precisão, mas para o médio e longo prazo não podemos nos esquecer dos tradicionais gargalos que sempre emperram o nosso crescimento econômico consistente: gasto público ruim, alimentado por uma péssima estrutura tributária, a infraestrutura física deficitária e a educação de baixa qualidade são alguns dos nossos melhores (piores, na verdade) exemplos. Um pouco menos de imposto estimula bem a economia, como se viu na venda de carros e eletrodomésticos com a redução do IPI. O dinheiro, bem empregado, pode contribuir em muito na melhoria da infra-estrutura, melhorando nossos custos de produção e aumentando a nossa competitividade internacional.
Mas se quisermos fazer frente às demais economias emergentes e atingir o nível dos países desenvolvidos, é preciso melhorar muito as nossas condições de educação (formando melhor cidadãos e profissionais) e prover acesso básico a serviços sociais. Só assim poderemos deixar de ser o país do futuro.
* Gerente do departamento de economia e pesquisa da Abras
Veículo: Revista SuperHiper edição de abril de 2010