Economia global volta a crescer em 2010, mas a situação fiscal na Europa e o fraco ritmo de expansão da economia americana mostram que o processo de recuperação ainda não está concluído. As medidas de controle mudaram de direção
Por Flávio Tayra
No começo de julho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) elevou para 7,1% a previsão de crescimento para a economia brasileira em 2010, 1,6 ponto percentual acima da projeção anterior e em linha com a previsão do mercado captada pelo Boletim Focus do Banco Central, divulgado no final de junho.
Em relação à economia mundial, o FMI também está mais otimista e revisou de 4,2% para 4,6% a previsão para o crescimento global. Apesar de alta, trata-se de uma média, que é incrementada pelo crescimento da China e dos países emergentes. Economias importantes como Europa e Japão continuam às voltas com um cenário de estagnação e dificuldades fiscais.
O cenário é, evidentemente, melhor do que o que se vivia há um ano. Mas a situação fiscal na Europa, a potencial desaceleração (a ser conferida nos próximos meses) da economia chinesa e o fraco ritmo de expansão da economia americana continuam a provocar receios entre os analistas sobre o estágio em que estamos no processo de recuperação econômica, seu diagnóstico e, principalmente, quanto aos potenciais remédios para combatê-los.
A história econômica mostra que houve apenas duas depressões no capitalismo (recessões, foram várias): os anos de deflação e instabilidade na crise de 1873 e os anos de desemprego em massa após a crise financeira de 1929. A de 1873 foi mais longa e a de 1929, mais aguda. Em ambas não houve queda contínua, mas intercalada com períodos de crescimento na economia. O economista norte-americano Paul Krugmann (Nobel de Economia em 2008) receia que podemos estar nos estágios iniciais de uma terceira depressão, um processo mais longo, mas menos severo do que o sempre citado episódio de 1929. Mas o custo poderá ser imenso.
Nos EUA, desde o início da crise mais de 7 milhões de empregos foram perdidos, enquanto outros 8,8 milhões de pessoas mantêm involuntariamente um regime de trabalho de meio período; o que mostra a dificuldade da economia americana em voltar a caminhar de forma mais consistente.
Divergências teóricas
No final do primeiro semestre, as preocupações com a oferta de liquidez ajudaram o euro a cair à cotação mínima histórica ante o franco suíço e ao menor valor em um ano e meio contra a libra. Ao mesmo tempo, as ações européias recuaram. O grande temor dos investidores é que a combinação das medidas de austeridade fiscal coordenadas na Europa e as dívidas de bancos não resolvidas atrapalhem de vez a recuperação econômica.
As instituições financeiras temem emprestar umas às outras, depois que a crise das dívidas soberanas europeias alimentou temores de que alguns governos poderão ter dificuldades para refinanciar suas dívidas, o que levou investidores a evitar os bônus vendidos por países como Grécia, Portugal e Espanha. Com isso, os bancos espanhóis, portugueses e gregos se tornaram bastante dependentes de fundos do BCE. Em julho de 2009, o Banco Central Europeu (BCE) emprestou € 442 bilhões (US$ 539 bilhões) aos bancos, nos seus esforços para mitigar os impactos da crise.
Embora a Grécia tenha recebido um resgate de € 110 bilhões da União Europeia e do FMI (Fundo Monetário Internacional) em troca de profundas medidas de austeridade para reduzir seu enorme déficit, Espanha e Portugal estão implementando cortes orçamentários considerados mais leves para melhorar a sua situação fiscal. E mesmo assim vêm enfrentando fortes resistências, com a eclosão constante de greves de trabalhadores.
Na análise de Krugmann, em suas medidas de austeridade, os governos se mostram obcecados com a inflação quando a verdadeira ameaça é a deflação e deveriam se preocupar menos com austeridade fiscal e mais com a qualidade e a direção do gasto.
Os defensores da austeridade fiscal (como os formuladores do BCE), por sua vez, acreditam que elevar impostos, aumentar juros e cortar gastos deverá ajudar a expandir a economia, pois melhora o nível de confiança nos negócios. O momento de crise global, no entanto, mostra que a austeridade no curto prazo – como no caso grego – pode não trazer a confiança de volta e deprime ainda mais a sua economia. A responsabilidade fiscal é muito importante, mas os cortes de gastos no meio da depressão tendem a piorar ainda mais o cenário, o que, na visão de Krugmann, abriria caminho para a deflação, com consequências angustiantes para a atividade econômica e para o nível de emprego. Não há receita de bolo em economia.
Veículo: SuperHiper Julho de 2010.