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03/04/2019 11:45 - Vendas diretas desafiam digitalização do varejo tradicional

O crescimento do e-commerce, ao contrário do que muitos podem pensar, não está prejudicando o crescimento das vendas diretas — também conhecidas como porta a porta. Muito pelo contrário. O tradicional modelo de distribuição olho no olho tem crescido tanto em número de vendedores e novos clientes quanto em diversificação de categorias de produtos.

 

Pelos cálculos da Associação Brasileira das Empresas de Vendas Diretas (Abevd), o Brasil assumiu a sexta posição no ranking do segmento, atrás apenas de Japão, Alemanha, Coreia do Sul, China e Estados Unidos. No ano passado, estima-se que o setor tenha movimentado mais de R$ 48 bilhões, superior aos R$ 45,2 bilhões contabilizados em 2017, e promoveu 4,1 milhões de empreendedores ativos. “Em tempos de desemprego recorde e baixo crescimento econômico, empreender no mercado porta a porta é um caminho natural para quem tem alguma experiência com vendas”, afirma a economista Priscilla Mituzaki, especialista em finanças e empreendedorismo da Universidade de Guarulhos (UnG). “A tendência é de que o segmento cresça ainda mais em um cenário de mudanças das relações trabalhistas e mudanças nas regras para o setor público.”

 

De acordo com a Abevd, embora o mercado seja alimentado pela informalidade, o setor se consolidou também como importante fonte de arrecadação de impostos. A entidade estima que cada R$ 1 milhão investidos em vendas diretas gere o recolhimento de aproximadamente R$ 415 mil em impostos, em um modelo de economia que mobiliza diferentes classes sociais em todas as regiões do país. Como comparação, essa arrecadação é de aproximadamente R$ 350 mil na indústria.

 

“O setor de vendas diretas tem obtido resultados positivos nos últimos anos, com o aumento das categorias ofertadas. A tecnologia surgiu como uma aliada do setor. O uso crescente do WhatsApp aproximou empreendedores de consumidores e, com isso, houve aumento significativo das vendas”, diz Adriana Colloca, presidente da Abevd, e líder de uma associação que representa 52 associadas e inclui gigantes como Natura, Herbalife, Mary Kay, Avon, Amway e Tupperware (Leia mais na entrevista abaixo).

 

Relatório da consultoria global Direct Selling and Communities in the Internet Age destaca o crescimento das vendas diretas mesmo com o boom do e-commerce. De acordo com o estudo, as vendas diretas crescerão 11,5% globalmente até 2021, sendo impulsionadas pelas regiões emergentes, inclusive o Brasil.

 

Já dados da Euromonitor International indicam que os maiores crescimentos nos próximos anos virão do Oriente Médio e da África (7% de crescimento médio por ano), Ásia (3%) e América Latina (2,5%). Nesse contexto, o Brasil ocupa posição de destaque no segmento, sendo responsável por 5% do faturamento mundial.

 

“Há uma correlação positiva entre os países emergentes e o tamanho e crescimento das vendas diretas. Vendas diretas são uma fonte de renda extra para os indivíduos nessas comunidades e também um canal para produtos básicos”, disse, em relatório sobre o tema, o economista Tim Barret, ex-analista sênior de varejo na Euromonitor International e atual diretor de pesquisas da consultoria Alix Partners, em Chicago.

 

Internet

 

Em sua análise, as empresas que operam por venda direta precisam se adaptar à revolução da internet, à medida que as novas gerações se tornam mais interessadas em realizar suas compras on-line e mais céticas em relação às marcas tradicionais. “As empresas têm o poder de mudar vidas e a venda direta procura explorar esse potencial por meio de um modelo de negócios centrado na rede de contatos”, diz o relatório.

 

As vendas porta a porta, que, durante décadas, se tornaram conhecidas pela oferta de cosméticos, perfumaria, leite fermentado e bijuterias, têm expandido seus horizontes com produtos menos convencionais. Exemplo disso é a multinacional alemã Pro-Aqua, que opera em 40 países e está apostando no mercado brasileiro com novidades como o Vivenso, um smartcleaner que promete substituir os aspiradores de pó tradicionais.

 

“A venda direta é uma excelente opção para empreender sem investir muito alto, já que não há necessidade de um estabelecimento comercial fixo, eliminando, assim, vários custos, como aluguel e, consequentemente, energia e impostos”, diz o CEO da empresa, Gerson Marçal.

 

Entrevista Adriana Colloca

 

Adriana Colloca, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas (Abevd), afirma que, com os altos índices de desemprego, a venda direta desponta com uma opção de empreendedorismo e renda.

 

Por que as vendas diretas estão conseguindo crescer em um ambiente de concorrência com lojas físicas e e-commerce?

 

Os principais atributos das vendas diretas são relacionamento, confiança, personalização e conveniência. O empreendedor independente conhece as necessidades do consumidor e, por isso, oferece a ele produtos e serviços adequados à sua realidade. Além de vender, o empreendedor presta também consultoria. Com a venda direta, o consumidor não precisa sair de casa, perder tempo, procurar o produto e carregar sacolas. Tudo vem até você com facilidade e praticidade.

 

Qual é o consumo atual no Brasil das vendas diretas e qual tem sido o crescimento nos últimos anos?

 

O setor de vendas diretas movimentou R$ 45,2 bilhões em volume de negócios em 2017, último balanço consolidado que temos. Outro dado importante em relação às vendas diretas é o total de itens vendidos. Só em 2017, foram comercializados 1,9 bilhão de produtos por meio deste canal de vendas. O Brasil é o sexto maior país do mundo no segmento.

 

A procura por produtos pela venda direta tem aumentado?

 

Sim. O setor de vendas diretas tem obtido resultados positivos nos últimos anos, com o aumento das categorias ofertadas. A tecnologia surgiu como uma aliada do setor. O uso crescente do WhatsApp aproximou empreendedores independentes de consumidores e, com isso, houve aumento significativo das vendas.

 

Quais são os produtos mais procurados hoje em dia?

 

A categoria “cosméticos” segue como líder no mercado brasileiro. Pesquisa encomendada pela Abevd mostra que esses produtos representam 54,7% das vendas. Já vestuário e acessórios, com 15,9%, ocupam o segundo lugar. Nos últimos anos, tem crescido o número de empresas que atuam no setor de suplementos alimentares, com produtos voltados para as áreas de nutrição e beleza, além dos artigos para casa e cuidados com o lar, entre outros.

 

Quantos revendedores existem hoje no Brasil?

 

Em todo o Brasil são 4,1 milhões de empreendedores independentes. Imagine quantas famílias dependem dessa atividade. É um setor que oferece oportunidades de trabalho e renda extra para todas essas pessoas, sejam elas das capitais, sejam das regiões mais remotas do país.

 

Quais as vantagens para os revendedores?

 

São muitas, como igualdade em questões como idade e gênero, flexibilidade de horários, ter a possibilidade de ser chefe de si mesmo, baixo investimento, desenvolvimento pessoal, relacionamento, renda e facilidade para deixar a atividade, caso queira trocar de área.

 

Como estão as perspectivas para 2019, com a economia patinando?

 

A perspectiva para 2019 é positiva. Temos previsão de ligeiro crescimento, mas, assim como a economia no geral, tudo depende da aprovação das reformas e dos rumos da economia, confiança dos consumidores e investidores.

 

Qual o impacto social das vendas diretas no Brasil?

 

As vendas diretas são uma atividade democrática e inclusiva. Como não há exigências para aderir ao setor, pessoas de todas as idades e classes sociais podem entrar a qualquer momento. O impacto social proporcionado pela atividade melhora a vida de milhões de pessoas no Brasil inteiro, de regiões até cidades. A renda conquistada por meio das vendas diretas permite que muitas mães possam pagar pela educação de seus filhos, universitários paguem pelos seus cursos e muitas pessoas realizem sonhos. A atividade também está relacionada ao empreendedorismo, à independência da mulher e à formação de jovens. Com os altos índices de desemprego, a venda direta desponta com opção de empreendedorismo e renda.

 

E do lado do consumidor?

 

Do lado do consumidor há também a oportunidade de acesso a produtos para quem não tem facilidade ou disponibilidade no varejo tradicional. Por fim, o impacto social da atividade também pode ser visto em empresas que apoiam projetos que enfrentam a violência doméstica e incentivam a descoberta precoce do câncer de mama, além da promoção de uma alimentação saudável para crianças em situação de risco social. Essas empresas, em sua maioria, acabam também oferecendo empregos diretos nas comunidades onde estão instaladas, além da força de vendas. Com tudo isso, posso dizer que as vendas diretas contribuem para o desenvolvimento do país.

 

Fonte: Correio Braziliense

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